CRM-PB Entrevista: Nara Nóbrega Crispim Carvalho

Em 2030, 68% da população brasileira pode estar com excesso de peso, conforme o estudo “A Epidemia de Obesidade e as DCNT – Causas, custos e sobrecarga no SUS”, realizado por uma equipe de 17 pesquisadores de diversas universidades do Brasil e uma do Chile e divulgado em janeiro deste ano. O estudo, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), mostra também que a prevalência do excesso de peso aumentou de 42% em 2006 para 55% em 2019, no Brasil.

 

A endocrinologista e nutróloga, Nara Nóbrega Crispim Carvalho, destaca que o excesso de peso aumenta o risco de desenvolver diversas doenças, acometendo praticamente todos os sistemas. “Precisamos mostrar ao paciente que a causa do ganho de peso é multifatorial. Colocar apenas a alimentação em foco é algo limitante. Estimular ou divulgar desinformações traz muita frustração para o paciente que tem obesidade”, ressalta.

 

Formada em Medicina na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), com Residência de Clínica Médica pelo HGV, endocrinologista pela SBEM, nutróloga pela ABRAN e BRASPEN e com mestrado e doutorado em Ciências da Nutrição pela UFPB, Nara Crispim é atualmente médica endocrinologista e preceptora do ambulatório de obesidade do HULW, médica nutróloga e coordenadora clínica da Equipe Multidisciplinar de Terapia Nutricional do HULW e HEETSHL, além de professora da Famene.

 

Na entrevista a seguir, ela fala das principais doenças relacionadas ao excesso de peso, sobre a desinformação de como tratar a obesidade, reeducação alimentar, além dos “sabotadores do emagrecimento”, como a busca por alimentos mágicos que emagrecem, fazer comparações com outros pacientes, não praticar atividades físicas e até pensamentos negativos. “Identificar estes fatores é o primeiro passo. Depois é preciso procurar ajuda de profissionais qualificados”, afirma.

 

O excesso de peso está associado ao risco de quais principais doenças?

O excesso de peso está associado ao risco de desenvolver diversas doenças, acometendo praticamente todos os nossos sistemas. Entre as principais, destaco: diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia, doenças cardiovasculares, distúrbios do sono (exemplo: apneia obstrutiva do sono), acometimento do sistema músculo-esquelético, problemas digestivos como o refluxo gastroesofágico, comprometimento do sistema respiratório, doenças psíquicas como ansiedade e depressão, risco de surgimento de diversos tipos de câncer e aumento de morte.

 

Constantemente vemos casos de chás, remédios ou mesmo determinados alimentos que surgem como “emagrecedores milagrosos”. Como convencer o paciente de que não existem receitas milagrosas para combater o excesso de peso e quais riscos estas falsas informações podem causar?

Eu acredito que precisamos mostrar ao paciente com excesso de peso que a causa do ganho de peso é multifatorial, envolvendo genética, epigenética e diversos fatores ambientais (sedentarismo, dieta com alimentos hipercalóricos e ultraprocessados, estresse, sobrecarga, sofrimento psíquico, sono ruim…). Para termos uma ideia de como a nossa genética influencia no excesso de peso, se tivermos um dos pais com obesidade, a chance do filho ter obesidade é de 40-50% e se ambos os pais tem obesidade, a chance do filho tê-la é de 80%. Dessa forma, colocar apenas a alimentação em foco é algo limitante, até mesmo “ignorante”. Estimular ou divulgar desinformações traz muita frustração para o paciente que tem obesidade, não é sustentável e não trata verdadeiramente o excesso de peso.

 

Quais são os principais “sabotadores do emagrecimento”?

Nos deparamos diariamente com os sabotadores do emagrecimento e se conseguirmos identificá-los, será mais fácil combatê-los. Abaixo eu enumero alguns dos principais sabotadores do emagrecimento:

❌1- O eterno e único motivo;

Viver em busca de algum exame ou diagnóstico mágico que mostre o motivo do ganho de peso fácil.

❌2- Alimento mágico;

Viver em busca do alimento que emagrece.

❌3- Continuar comprando os mesmos alimentos não saudáveis;

❌4- Frequentar locais inapropriados para se alimentar, exemplo: rodízios;

❌5- Dormir pouco ou ter um sono de qualidade ruim;

❌6- Não praticar atividade física.

❌7- Sobrecarga;

Ficar sobrecarregado o tempo todo.

❌8- Pensamentos negativos;

Achar que não consegue ficar sem a comida gostosa, que é sofrimento ter que praticar atividade física, que nasceu para ser “gordinho” mesmo…

❌9- Fazer comparações;

Minha amiga come tudo e não engorda. Meu vizinho começou a modificar os hábitos e perdeu muito peso em poucas semanas. Fulano está sendo acompanhado com os meus profissionais e perdeu bem mais peso que eu.

❌10- Equipe de saúde mágica;

Pular de profissional em profissional em busca do tratamento ou dieta mágica.

Identificar esses fatores é o primeiro passo, após isso, procurar ajuda de profissionais qualificados com estratégias eficazes é o melhor caminho.

 

Como a sra define a reeducação alimentar e quais os principais benefícios que ela pode trazer?

A reeducação alimentar é um processo individualizado. Primeiro precisamos identificar em qual estágio o paciente se encontra, qual o entendimento que ele tem sobre alimentação saudável e o quanto ele está disposto naquele momento a melhorar a alimentação. Assim, reeducação alimentar tem um conceito muito amplo para mim, vai desde uma pequena redução calórica na alimentação (diminuição da quantidade de alimentos) até uma evolução para uma melhora na qualidade do consumo de alimentos, como introdução de frutas, verduras, cereais, carnes magras e diminuição de doces, massa e frituras de uma forma espontânea e constante. Uma alimentação saudável com restrição calórica é capaz de reduzir peso, melhorar composição corporal, glicemia, colesterol, pressão arterial, gordura no fígado, sono, disposição e até mesmo melhora psíquica.

 

Como uma alimentação saudável pode ajudar também no combate ao estresse?

Uma alimentação saudável pode ajudar a reduzir níveis de estresse por alguns alimentos serem responsáveis por liberação de substâncias pelo nosso organismo que atenuam o estresse, como serotonina. Já outros alimentos diminuem o cortisol e a adrenalina que são hormônios relacionados ao estresse.

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