Por Dra. Maria do Socorro F. Martins
MÉDICA CRM-PB: 3588
Pediatria RQE Nº: 3767
Presidente da Sociedade Paraibana de Pediatria
Membro do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria
O Ministério da Saúde incorporou no PNI (Programa Nacional de Imunizações) a vacina contra o VSR (Vírus Sincicial Respiratório) para gestantes no SUS, que já se encontra distribuída em todos os estados da federação, disponível nas salas de vacinas das UBS (Unidades Básicas de Saúde). É uma estratégia muito importante para reduzir internações e óbitos em lactentes nos primeiros meses de vida, especialmente os prematuros, que apresentam alta vulnerabilidade às complicações pelo VSR. Essa proteção acontece através da imunização passiva com a passagem de anticorpos transplacentários da classe IgG, especialmente no último trimestre.
O VSR é um vírus de RNA, não segmentado e envelopado, pertencente à família Pneumoviridae, gênero Orthopneumovirus. Existem dois subtipos do VSR que infectam humanos: A e B. Pode causar infecções em indivíduos de todas as faixas etárias; entretanto, os lactentes, especialmente aqueles com menos de 6 meses de idade, apresentam maior risco de desenvolver formas graves da doença, sendo essa a principal causa de hospitalizações neste grupo. A morbimortalidade é ainda mais acentuada entre prematuros e crianças com cardiopatias congênitas ou doença pulmonar crônica da prematuridade.
Possui uma carga substancial de doenças para recém-nascidos e lactentes, tanto à curto e médio prazo com seu quadro agudo através de infecções do trato respiratório inferior (ITRI), hospitalizações e mortes, como à longo prazo pelas sequelas deixadas pela sibilância recorrente, asma e problemas pulmonares acarretando comprometimento da função pulmonar e hospitalizações repetidas entre outras. Praticamente todas as crianças serão infectadas por ele até os 24 meses de idade. A reinfecção pode ocorrer durante toda a vida, mas as formas graves da doença predominam na primoinfecção.
Principal causador de infecções respiratórias agudas em crianças menores de 2 anos, sendo responsável por 80% dos casos de bronquiolite viral aguda e até 60% das pneumonias virais, representando 58% das internações em crianças menores de 6 meses, sendo a segunda causa de morte globalmente, em crianças menores de 5 anos, perdendo apenas para a malária. Em alguns lugares ele é conhecido como o causador da “Doença do Bebê”.
A transmissão ocorre por contato direto com secreções respiratórias de pessoas infectadas ou através de superfícies ou objetos contaminados. O período de incubação é de 4-6 dias. Pode causar desde sintomas leves do trato respiratório superior (tosse, coriza), até infecções graves do trato respiratório inferior, como bronquiolite e pneumonia, com comprometimento do estado geral e desenvolvimento de insuficiência respiratória, que podem levar à morte.
No momento, não há tratamento antiviral específico para infecções causadas pelo VSR. O tratamento é de suporte e pode exigir hospitalização para uso de oxigênio suplementar e hidratação venosa. Também ainda não temos disponível vacinas para prevenção por meio da imunização ativa para as crianças.
Possui um pico de sazonalidade no outono-inverno, entretanto, infecções por VSR podem ocorrer durante o ano todo aqui em nosso país. Os estudos evidenciam que a maioria das hospitalizações, em torno de 80%, ocorre em bebês saudáveis e à termo, diferentemente do paradigma, que ele acomete mais aqueles grupos de bebês com maior vulnerabilidade. Ele é um grave problema de saúde pública, sobrecarregando e muitas vezes até colapsando, toda a rede de assistência durante sua sazonalidade.
O estudo pivotal MATISSE, duplo-cego, randomizado, utilizado para licenciamento da vacina pelos órgãos regulatórios, foi realizado em 18 países, com 7.358 gestantes entre 24 e 36 semanas de gestação, demonstrou uma eficácia de 81,8% (IC 95%:40,6; 96,3) na prevenção de doença grave do trato respiratório inferior em bebês até 3 meses de vida, e de 69,4% (IC 95%: 44,3%; 84,1%) até os 6 meses de idade. A vacina contra o VSR bivalente (A e B), utiliza uma plataforma de proteína recombinante estabilizada da subunidade F do vírus. Essa tecnologia integra o projeto de Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) “Vacina Vírus Sincicial Respiratório (VSR)”, aprovado pela Portaria GM/MS n.º 6.645, de 25 de fevereiro de 2025, e desenvolvido pelo Instituto Butantan em colaboração com a Pfizer Inc. e a Pfizer Brasil ltda.
Também demonstrou um bom perfil de segurança nos estudos clínicos da fase III, onde eventos supostamente atribuíveis à vacinação (ESAVI) foram considerados não graves, autolimitados e compatível com a reatogenicidade esperada para as vacinas inativadas.
A recomendação é para ser administrada a partir da 28ª semana de gestação e preferencialmente até 14 dias antes do parto, para garantir uma maior transferência de anticorpos, caso não seja possível, a gestante pode receber até o dia da realização do parto. Indicada em dose única a cada gestação, sem restrição mínima ou máxima de idade materna, pode ser administrada concomitantemente com as demais vacinas do calendário da gestante. A meta desejada é vacinar 80% das gestantes, o que equivale em torno de 2.500.000 mulheres.
Para a gestante ter direito a vacinação precisa informar sobre seu estado de gravidez e idade gestacional (cartão da gestante ou cartão do pré-natal, exames comprobatórios, relatório médico ou encaminhamento de qualquer profissional de saúde de nível superior).
Vacinando a gestante oportunizaremos para o bebê a presença de anticorpos neutralizantes em elevados títulos, adquiridos passivamente pela mãe, associada com menor risco de hospitalização. A imunização passiva de lactentes pode ser feita diretamente com anticorpos monoclonais, como o palivizumabe ou o nirsevimabe, ou indiretamente, por vacinação materna, com a transferência transplacentária dos anticorpos para o feto ocorrendo principalmente no trimestre final da gestação.
Essa incorporação da vacina pelo SUS representa um grande avanço do PNI no controle de doenças infectocontagiosas de nossas crianças, com diminuição do índice de morbimortalidade infantil, promovendo uma infância mais saudável e um futuro sem impacto de sequelas.