Dr. Bruno Leandro de Souza
MÉDICO CRM-PB: 6312
Presidente do CRM-PB
Pediatria RQE: 3910
Administração em Saúde RQE: 7910
A divulgação recente dos dados de avaliação dos cursos de Medicina reacende um debate que é antigo, necessário e inadiável no Brasil: a qualidade da formação médica e seus impactos diretos sobre a assistência prestada à população. Na Paraíba, dos nove cursos avaliados, quatro obtiveram nota 2, considerada insuficiente, ao passo que a maior parte dos cursos bem avaliados, tanto no estado quanto no país, pertence a universidades públicas. Esses números, por si só, não devem ser tratados como mera estatística, mas como um sinal de alerta para gestores, instituições de ensino, órgãos reguladores e para a sociedade como um todo.
A Medicina é uma profissão de alta complexidade técnica, científica e ética. Erros na formação não se limitam ao ambiente acadêmico; eles repercutem no consultório, na unidade básica de saúde, na emergência e no centro cirúrgico, com consequências concretas para a segurança do paciente. Fragilidades estruturais, ausência de campos de prática adequados, corpo docente insuficientemente qualificado e modelos pedagógicos desconectados da realidade do sistema de saúde comprometem a formação do médico e colocam em risco a qualidade da assistência.
A expansão acelerada de cursos de Medicina nas últimas décadas, especialmente no setor privado, não foi acompanhada, em muitos casos, do necessário rigor regulatório e avaliativo. O resultado é um cenário heterogêneo, no qual convivem instituições de excelência com cursos que não conseguem garantir o mínimo esperado para uma formação médica segura. É nesse contexto que os processos de avaliação ganham centralidade, não como instrumentos punitivos, mas como ferramentas essenciais de diagnóstico, correção de rumos e proteção social.
A avaliação da qualidade das escolas médicas representa uma etapa fundamental do processo formativo. Ela permite identificar deficiências, orientar políticas públicas e exigir melhorias concretas das instituições de ensino. No entanto, a avaliação institucional, por si só, não é suficiente para assegurar que todo egresso esteja apto ao exercício profissional. É justamente nesse ponto que se impõe a discussão sobre a prova de proficiência médica.
A defesa de um exame nacional de proficiência, como o PROFIMED, parte de um princípio elementar: a proteção da sociedade. Não se trata de restringir o exercício profissional de forma arbitrária, mas de assegurar que o médico que ingressa no mercado de trabalho detenha conhecimentos, habilidades e competências mínimas indispensáveis à prática da Medicina. Em países com sistemas de saúde consolidados, avaliações desse tipo são parte natural do processo de certificação profissional.
O PROFIMED se apresenta como um instrumento técnico, ético e socialmente responsável. Ao avaliar o egresso ao final da graduação, o exame contribui para identificar lacunas formativas, estimula a melhoria contínua dos cursos e impede que profissionais sem a qualificação necessária atendam diretamente a população. Trata-se de uma medida que fortalece a Medicina, valoriza os bons cursos e protege o cidadão.
O Sistema Conselhos de Medicina, liderado pelo Conselho Federal de Medicina, tem reiteradamente afirmado que a defesa da prova de proficiência não é corporativismo, mas compromisso com a qualidade da assistência e com a segurança do paciente. A sociedade brasileira não pode ser exposta aos riscos decorrentes de uma formação inadequada, tampouco aceitar que a fragilidade do ensino médico seja tratada com naturalidade.
Em última análise, discutir a qualidade dos cursos de Medicina e a necessidade do PROFIMED é discutir o futuro da saúde no Brasil. Cuidar da formação médica é cuidar da vida. Ignorar os dados, relativizar avaliações negativas ou resistir a mecanismos de aferição de competência significa transferir para a população o custo de um sistema formativo falho. O caminho responsável é o da avaliação rigorosa, da correção das distorções e da implementação de instrumentos que garantam que todo médico, ao exercer a profissão, esteja à altura da confiança que a sociedade deposita na Medicina.