Por Dr. João Modesto Filho
MÉDICO CRM-PB: 973
Endocrinologista RQE: 1026
Vários estudos já mostraram uma relação entre o consumo de álcool e sete tipos de câncer (colorretal, esôfago, fígado, boca, faringe, laringe e mama), mas a ligação com o câncer de pâncreas sempre foi considerada limitada ou inconclusiva. Pesquisas anteriores sugeriam um papel do álcool apenas em altos níveis de consumo (>30 g/dia), e pouco se sabia sobre esse efeito em mulheres e não fumantes. Uma pesquisa publicada recentemente na revista PLOS Medicine oferece novas evidências de que o câncer de pâncreas pode ser mais um tipo de neoplasia associado ao álcool.
Esse novo estudo demonstra uma associação modesta, porém significativa, entre o consumo de álcool e o risco de desenvolver câncer de pâncreas, independentemente do tabagismo e do sexo — conforme aponta o Centro Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (CIRC), órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde. O estudo revelou que, para cada aumento de 10 g/dia no consumo de álcool (equivalente a uma dose padrão), há um acréscimo de 3% no risco de câncer pancreático. Entre as mulheres, o consumo de 15 a 30 g/dia elevou o risco em 12%, comparado a uma ingestão baixa (0,1 a 5 g/dia). Por sua vez, entre os homens, o consumo de 30 a 60 g/dia e acima de 60 g/dia aumentou o risco em 15% e 36%, respectivamente. O estudo reuniu dados de 30 coortes populacionais em quatro continentes, totalizando 2,5 milhões de pessoas (mediana de idade: 57 anos), acompanhadas entre 1980 e 2013. Dentre elas, 10.067 desenvolveram câncer de pâncreas.
Esse tipo de câncer continua sendo um dos mais letais, com diagnóstico tardio e baixa sobrevida. A identificação de um fator de risco modificável, como o álcool, é altamente relevante, e essa descoberta reforça a necessidade de ações educativas em saúde pública, especialmente em populações que consomem álcool regularmente, mesmo em doses consideradas “moderadas”. Como o risco é dose-dependente, isso sugere que qualquer redução no consumo pode trazer benefícios. Dessa forma, essa associação reforça a política da OMS de redução global do uso nocivo de álcool como estratégia de controle do câncer.
Nesses termos, pode-se indicar que futuras pesquisas deverão estar alinhadas a estudos longitudinais que avaliem o consumo de álcool ao longo da vida. Além disso, é necessário incluir investigações sobre os mecanismos moleculares que ligam o etanol à carcinogênese pancreática, bem como pesquisas sobre o impacto da interação entre álcool, microbiota intestinal e inflamação crônica no pâncreas. Como o risco se mostrou dose-dependente e independente do tabagismo, e os efeitos foram consistentes em homens e mulheres, medidas como a rotulagem obrigatória de bebidas alcoólicas com advertências relacionadas ao risco de câncer pancreático devem ser consideradas pelas políticas públicas de saúde. Nesse sentido, a conscientização sobre os riscos da ingestão alcoólica e seu vínculo com o câncer de pâncreas é imperativa — sobretudo diante do prognóstico reservado dessa neoplasia altamente fatal.