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Entrevista com Dr. Flávio Augusto Lyra Tavares de Melo

 

O mês de agosto é dedicado ao incentivo, promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno. A campanha “Agosto Dourado” estimula e informa sobre a importância da amamentação para o bebê e para a mãe. O pediatra Flávio Melo ressalta que o incentivo ao aleitamento deve iniciar mesmo antes da gestação, quando já há a intenção de engravidar. “A gente já começa a desmistificar algumas questões nesse período e continua esse trabalho na hora do parto, com o contato pele a pele, e depois incentivando as redes de apoio”, afirma o médico formado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e com residência em Pediatria pelo Instituto de Medicina Integral Fernando Figueira (Imip), em Recife (PE).

Na entrevista a seguir, Flávio fala sobre a campanha, os resultados positivos ao longo das últimas décadas, os estudos e as evidências sobre a amamentação e a covid, além dos mitos e a desinformação que ainda existem sobre o tema. Natural de Piracicaba (SP), Flávio morou também em Campinas (SP), em cidades do interior de Pernambuco, em João Pessoa (onde fez faculdade), em Recife (onde fez Residência Médica) e, desde 2005, mora em Bananeiras (PB). Atualmente trabalha em cidades do Brejo paraibano: Solânea (consultório particular) e Guarabira (Banco de Leite Humano do Hospital Regional).

              

Estamos no Agosto Dourado, mês dedicado à promoção do aleitamento materno. Como os médicos podem incentivar as mães a amamentarem seus filhos?

O incentivo deve começar desde antes de engravidar. Quando a mulher ou o casal decide engravidar, a gente começa a falar da importância do aleitamento, durante a gravidez, durante o pré-natal, dando todo suporte. A gente começa a desmistificar as questões relativas ao aleitamento. No parto, especialmente, a gente faz a instituição da amamentação precoce, na primeira hora, na hora de ouro, com o contato pele a pele e depois todo apoio no início da amamentação. Também propagamos a vantagem da amamentação do ponto de vista imunológico, nutricional, econômica, de sustentabilidade, que já estão comprovadas cientificamente e que não se comparam com outra forma de alimentação artificial. O leite materno é um alimento vivo, dinâmico, apropriado para o binômio mãe/bebê. As vantagens do aleitamento não são só para a diminuição de risco de doenças nas crianças, como as infecciosas ou crônicas, mas também para a mãe, como a diminuição de risco de câncer, de diabetes, que já foram demonstrados por estudos feitos a longo prazo.


As campanhas de incentivo à amamentação vêm apresentando resultados positivos? Ao longo das últimas décadas tem aumentado o número de crianças alimentadas pelo leito materno?

Com certeza, com todo esse processo de incentivo à amamentação e as campanhas midiáticas feitas ao longo do tempo pelo Ministério da Saúde, pela Sociedade Brasileira de Pediatria, pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, pelos Conselhos de Medicina, dentre outros, estamos vendo, cada vez mais, um número maior de aleitamento exclusivo até os seis meses. Além disso, estamos mostrando que a amamentação prolongada, recomendada por dois anos ou mais, complementada com alimentos não processados (comida de verdade), é benéfica. Então, comida de verdade e amamentação prolongada é o novo paradigma a ser buscado, que ainda é difícil. Mas com as campanhas que vêm ocorrendo nas últimas duas décadas, vemos os números melhorando.


As mães que estão com suspeita ou confirmação de infecção pelo coronavírus podem amamentar?

Sim. Com as evidências científicas que temos hoje, desde que as condições clinicas da mãe permitam e ela deseje amamentar, é totalmente liberada a amamentação, tanto no período de isolamento ou com sintomas suspeitos, com a lactante se protegendo com uso de máscara e lavagem das mãos. Caso ela vá extrair o leite para ofertar, que seja feito com uma bomba dedicada e, se for necessário, alguém pode ajudar com o manejo do bebê. Hoje em dia não existe nenhuma contraindicação, não existe evidência que o vírus seja transmitido pelo leite materno, muito pelo contrário. O aleitamento materno mantém o fortalecimento do vínculo mãe/bebê, como também a proteção inespecífica através de componentes imunológicos benéficos que o leite da mãe passa para o filho.


O leite materno protege o bebê de algumas doenças infecciosas. Protege do coronavírus também?

Sim. Ainda não há evidência muito forte por pouco tempo dos estudos, mas nós já temos evidências cientificas em geral que o leite materno contém células do sistemas imunológico, como linfócitos T, linfócitos B. Existem vários componentes imunogênicos, peptídeos, oligossacarídeos do leite materno que ajudam na regulação da microbiota e da resposta imune, além da lactoferrina e vários outros constituintes que vão ter componentes antivirais, antibacterianos, protegendo de complicações e fortalecendo o sistema imunológico, além da IGA secretora inespecífica. Com os estudos avançando, vamos poder demonstrar a presença de anticorpos específicos.


As mães vacinadas contra a covid e que estão amamentando transmitem seus anticorpos para o bebê?

Sim, a evidência mais recente já mostra que existe a transmissão de mães vacinadas lactantes através do leite materno, tanto de anticorpos do tipo IGA secretora que vai acabar causando uma espécie de proteção associada às mucosas, à entrada do corpo, trato digestório e respiratório, como também de IGG específica, por exemplo, a proteína S, o seu receptor de ligação. Porém ainda estamos aguardando estudos de efetividade através dessa passagem desses anticorpos, quanto seria esse impacto. Mas lembrando que a lactante vacinada vai ter a proteção indireta, tendo em vista que a redução do risco de infecção ou complicações na mãe, termina por beneficiar o bebê. Mas a gente já sabe que há passagem transplacentária de anticorpos e passagem pelo leite materno, comprovado em estudos, com total segurança.


O senhor acredita que ainda há muita falta de informação sobre a amamentação?

Certamente ainda há muita desinformação. A gente lida com muitos mitos que são passados pela comunidade, como a questão do leite fraco, ou que uma mãe não conseguirá amamentar se tiver o bico do seio invertido, ou um seio menor ou maior, ou se não conseguiu amamentar o primeiro filho não vai conseguir o segundo… então, a gente luta todos os dias para derrubar esses mitos, desmitificar, estimular, criar equipes que sejam apoiadoras da amamentação, formação de redes de apoio familiar, redes de apoio através de órgãos como por exemplo os bancos de leite humano, postos de coleta de leite humano, bancos de leite para receberem doações e darem suporte às unidades neonatais. Então a gente tem um trabalho contínuo a fazer para o incentivo à amamentação, de todo um processo em quem vai ganhar são a sociedade, a mãe que amamenta e os bebês.

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