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Dra. Andréa Correia Nóbrega de Sá

MÉDICA CRM-PB 8383

Ginecologista e Obstetra RQE? 5744

Conselheira e Membro da Comissão de Segurança Obstétrica do CRM-PB

 

A mortalidade materna permanece como um dos mais importantes indicadores da qualidade da assistência à saúde da mulher. Apesar dos avanços observados nas últimas décadas, milhares de mulheres ainda perdem a vida todos os anos em decorrência de complicações relacionadas à gestação, ao parto e ao puerpério. Entre as principais causas de morte materna evitável, destacam-se as síndromes hipertensivas da gestação, especialmente a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia.

 

A pré-eclâmpsia é uma condição multissistêmica caracterizada pelo surgimento de hipertensão arterial após a 20ª semana de gestação, associada ou não à proteinúria e a sinais de comprometimento de órgãos-alvo. Estima-se que acometa entre 2% e 8% das gestações em todo o mundo, permanecendo como uma das principais causas de morbimortalidade materna e perinatal.

 

Embora existam estratégias eficazes para prevenção, diagnóstico e tratamento, muitas mulheres ainda chegam aos serviços de referência em condições graves, frequentemente após atrasos na identificação dos sinais de alerta ou no acesso ao tratamento adequado. Grande parte dessas complicações poderia ser evitada por meio de uma assistência pré-natal qualificada e de redes de atenção bem estruturadas.

 

A prevenção da pré-eclâmpsia começa ainda no pré-natal. Evidências científicas robustas demonstram que o uso de ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose para gestantes com fatores de risco, iniciado preferencialmente entre 12 e 16 semanas de gestação, reduz significativamente a incidência de pré-eclâmpsia precoce, restrição de crescimento fetal e desfechos perinatais adversos. Da mesma forma, a prática regular de atividade física durante a gestação, quando não houver contraindicações obstétricas, contribui para a promoção da saúde materna, auxiliando no controle pressórico e na redução do risco de complicações gestacionais.

 

No Brasil, as síndromes hipertensivas continuam figurando entre as principais causas de morte materna. Na Paraíba, os dados também merecem atenção. Em 2025, foram registrados 36 óbitos maternos para aproximadamente 38.980 nascidos vivos, resultando em uma Razão de Mortalidade Materna de 92,4 óbitos por 100 mil nascidos vivos. O indicador permanece muito acima da meta estabelecida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas, que propõe menos de 30 óbitos maternos por 100 mil nascidos vivos até 2030.

 

Mais preocupante que os números é a constatação de que muitas dessas mortes poderiam ser evitadas por meio da identificação precoce dos fatores de risco, da adequada estratificação das gestantes, da qualificação das equipes assistenciais e do acesso oportuno a intervenções comprovadamente eficazes.

 

Diante desse cenário, torna-se fundamental fortalecer estratégias capazes de impactar diretamente as principais causas de morte materna evitável. Nesse contexto, iniciativas voltadas à segurança obstétrica, à educação permanente e à qualificação da assistência assumem papel central na construção de uma rede de cuidado mais segura para mães e bebês.

 

A Atenção Primária à Saúde ocupa posição estratégica nesse processo. Como principal porta de entrada do sistema de saúde, tem potencial para identificar precocemente fatores de risco, reconhecer sinais de gravidade e garantir encaminhamento oportuno das gestantes que necessitam de cuidados especializados.

 

Entre as ações com maior potencial de impacto destaca-se a capacitação das equipes para o reconhecimento precoce das síndromes hipertensivas da gestação e para o uso oportuno do sulfato de magnésio, considerado padrão-ouro na prevenção e tratamento das convulsões relacionadas à eclâmpsia. Evidências demonstram que a adoção dessas medidas reduz significativamente complicações graves, morbidade materna extrema e óbitos evitáveis.

 

Nesse contexto, iniciativas desenvolvidas pela Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG), como a Iniciativa VIDA – Vigilância, Identificação, Diagnóstico e Ação –, vêm contribuindo para a disseminação de protocolos baseados em evidências e para a capacitação de profissionais em diferentes níveis de atenção à saúde.

 

Na Paraíba, o fortalecimento dessas estratégias tem sido pauta permanente de discussão entre instituições comprometidas com a saúde da mulher. Destacam-se as ações promovidas pela Comissão de Segurança Obstétrica do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB), bem como os esforços conjuntos de sociedades científicas, instituições de ensino, gestores e serviços de saúde na qualificação da assistência obstétrica.

 

Esse movimento ganha ainda mais relevância com a realização, em João Pessoa, entre os dias 8 e 10 de outubro de 2026, do III Congresso Internacional de Saúde da Mulher. O evento contará com a III Jornada da Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez, reunindo especialistas nacionais e internacionais para discutir avanços científicos, estratégias assistenciais e políticas públicas voltadas à redução da mortalidade materna.

 

A programação representa uma importante oportunidade para atualização científica, troca de experiências e fortalecimento das redes de cuidado, aproximando profissionais da Atenção Primária, maternidades, serviços de referência e gestores de iniciativas exitosas já implementadas em diferentes regiões do país.

 

A redução da mortalidade materna exige compromisso coletivo, qualificação profissional e fortalecimento das redes de atenção à saúde. Cada gestante adequadamente acompanhada no pré-natal, cada profissional capacitado para reconhecer uma emergência hipertensiva e cada serviço preparado para oferecer assistência baseada em evidências representam oportunidades concretas de salvar vidas.

 

Como obstetra, professora, conselheira do CRM-PB e integrante da Comissão de Segurança Obstétrica, reconheço que essa é uma responsabilidade compartilhada entre gestores, profissionais de saúde, instituições e sociedade.

 

Reduzir a mortalidade materna não é apenas cumprir um indicador sanitário. É reafirmar o compromisso ético de proteger a vida das mulheres e garantir que gestação, parto e puerpério sejam vivenciados com segurança, dignidade e cuidado. Porque nenhuma mulher deveria perder a vida ao gerar outra vida.

 

Referências

  1. Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG). Protocolo Brasileiro para Hipertensão na Gravidez. 2025.
  2. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Recomendações para prevenção, diagnóstico e manejo da pré-eclâmpsia.
  3. Organização Mundial da Saúde (OMS). Recommendations for Prevention and Treatment of Pre-eclampsia and Eclampsia. Geneva: WHO.
  4. Ministério da Saúde. Gestação de Alto Risco: Manual de Atenção Especializada. Brasília: Ministério da Saúde.
  5. DATASUS/SINASC. Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos e Indicadores de Mortalidade Materna.
  6. Organização das Nações Unidas (ONU). Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – Meta 3.1: Redução da Mortalidade Materna.
  7. Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG). Iniciativa VIDA – Vigilância, Identificação, Diagnóstico e Ação.
  8. International Federation of Gynecology and Obstetrics (FIGO). The FIGO Textbook of Pregnancy Hypertension.
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