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Por Dra. Anna Catharina Magliano Carneiro da Cunha Florêncio

MÉDICA CRM-PB: 4369

Ginecologia e Obstetrícia RQE: 3507

Áreas de atuação: Ultrassonografia em ginecologia e obstetrícia RQE: 3549

 

A mortalidade materna permanece como um dos indicadores mais sensíveis da qualidade de um sistema de saúde. Mais do que expressar a ocorrência de doenças graves durante a gestação, o parto ou o puerpério, cada óbito materno exige olhar para além das causas clínicas: é preciso avaliar a capacidade da rede em reconhecer riscos, garantir acesso oportuno aos serviços de saúde e responder adequadamente às emergências obstétricas.

 

Na Paraíba, entre 2011 e 2024, foram registrados 524 óbitos maternos entre mulheres residentes no estado. Dados preliminares de 2025 apontam uma razão de mortalidade materna (RMM) de 70,4 óbitos por 100 mil nascidos vivos, demonstrando que ainda estamos muito distantes da meta nacional adaptada do ODS 3.1: alcançar, até 2030, uma RMM de no máximo 30 óbitos por 100 mil nascidos vivos.

 

Há também uma meta intermediária que exige esforço significativo de todos nós: a Rede Alyne estabeleceu o compromisso de reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027 e, entre mulheres pretas, em 50% no mesmo período. Quando observamos as causas de mortes, um problema se destaca de forma persistente: a hipertensão na gestação.

 

Entre 2011 e 2024, 111 mulheres morreram na Paraíba em decorrência de doenças hipertensivas da gestação e do puerpério. Isso corresponde a aproximadamente uma em cada cinco mortes maternas no estado e, em média, a oito óbitos por ano.

 

A hipertensão foi, nesse período, a principal causa obstétrica direta isolada de morte materna na Paraíba. A mortalidade associada às doenças hipertensivas foi aproximadamente três vezes maior que a observada em decorrência das complicações hemorrágicas.

 

Além disso, durante o período da pandemia, entre 2020 e 2022, ainda tivemos um adicional de mortes por COVID-19, que atingiu a população obstetríca de forma intensa e  desproporcional, se  compararmos  aos óbitos ocorridos no restante da população. Tal recorte merece destaque e importância de um texto à parte.

 

A comparação dos números paraibanos com os verificados no contexto do Brasil também merece atenção. Entre 2012 e 2023, a razão de mortalidade materna por hipertensão na Paraíba esteve acima da média brasileira em 11 dos 12 anos analisados.

 

As doenças hipertensivas corresponderam a 21,2% das mortes maternas paraibanas entre 2011 e 2024, enquanto, se considerarmos o contexto de país, essa participação foi de aproximadamente 17,8% no período analisado.

 

Tal diferença se insere em um cenário de desigualdades. Dados nacionais mostram razões de mortalidade materna por hipertensão mais elevadas nas regiões Norte e Nordeste. Também evidenciam importantes desigualdades raciais: mulheres pretas e indígenas apresentam razões de mortalidade superiores às observadas entre mulheres brancas.

 

Talvez, no entanto, um dos dados importantes ao refletirmos sobre a organização da assistência esteja na análise do momento em que essas mortes maternas acontecem. Na Paraíba, 63,1% dos óbitos por hipertensão foram registrados no puerpério de até 42 dias. Entre os óbitos por pré-eclâmpsia grave registrados no puerpério, essa proporção chegou a 86,1%. O dado reforça uma mensagem essencial: o parto não encerra o risco materno.

 

Também chama atenção o fato de que, entre os 111 óbitos por hipertensão, 72 — aproximadamente 65% — foram atribuídos à pré-eclâmpsia grave ou à eclâmpsia, condições para as quais existem intervenções bem estabelecidas, como o uso oportuno do sulfato de magnésio e o tratamento adequado da hipertensão grave.

 

Outro aspecto relevante é o local onde essas mulheres morreram. Entre 2000 e 2024, 93,7% dos óbitos maternos por hipertensão ocorreram em hospitais. Considerando também outros estabelecimentos de saúde, esse percentual chegou a 95,2%. Esses números reforçam a necessidade de olhar para todo o percurso assistencial: o reconhecimento precoce da gravidade, o tempo para início do tratamento, a regulação, as transferências entre serviços e a continuidade da vigilância após o parto.

 

Reduzir a mortalidade materna exige atuar em toda a linha de cuidado. Um pré-natal capaz de reconhecer e estratificar o risco é indispensável, mas não suficiente. As portas de entrada da rede precisam identificar precocemente as emergências obstétricas e iniciar o tratamento indicado.

 

As maternidades devem garantir protocolos assistenciais, medicamentos e insumos essenciais, monitoramento adequado e resposta rápida. A alta hospitalar precisa representar uma transição segura para o cuidado puerperal, e não o encerramento da vigilância.

 

Especial atenção deve ser dada à mulher desde as primeiras horas após o parto, até as semanas que se seguem. A elevada proporção de mortes no puerpério mostra que a segurança materna depende também da capacidade de manter o cuidado quando a mulher muda de setor, de equipe ou de nível de atenção. O desafio é garantir que a vigilância não seja interrompida nas transições entre maternidade, alta hospitalar, domicílio e atenção primária.

 

Os números da Paraíba não apontam para uma única falha, nem para uma única solução. Eles mostram a necessidade de uma rede articulada, capaz de reconhecer o risco, tratar precocemente, regular com agilidade e assegurar continuidade do cuidado após o nascimento.

 

Reduzir a mortalidade materna exige, portanto, mais do que ampliar o acesso ao pré-natal. É necessário garantir estratificação adequada do risco, reconhecimento precoce dos sinais de gravidade, disponibilidade imediata de insumos essenciais, protocolos assistenciais efetivos, regulação ágil e continuidade do cuidado após a alta hospitalar.

 

A vigilância precisa acompanhar a mulher durante toda a sua trajetória assistencial — da atenção primária à maternidade, da urgência ao centro obstétrico e, especialmente, da alta hospitalar ao cuidado puerperal no território.

 

No Brasil, cerca de 92% das mortes maternas são consideradas evitáveis. Esse dado dimensiona a responsabilidade coletiva diante do problema e, ao mesmo tempo, mostra o quanto é possível avançar.

 

Cada morte materna deve ser compreendida não apenas como um desfecho epidemiológico, mas como um uma tragédia evitável, através da oportunidade de identificar vulnerabilidades, aprimorar processos e transformar aprendizado em segurança assistencial.

 

Reduzir a mortalidade materna é reconhecer que, ao longo de toda a trajetória do cuidado, cada oportunidade de intervenção pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

Fontes: SIM/DATASUS; SINASC; RIPSA/DEMAS-MS; Painel de Mortalidade Materna da SES-PB; Ministério da Saúde/Rede Alyne; Dorcély DF, Surita FG, Costa ML, Guida JP. Hypertension in Pregnancy, 2025.

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