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UM É BOM, DOIS PODE SER MUITO, E TRÊS DEMAIS PDF Imprimir E-mail
Qua, 09 de Julho de 2008 22:50

Autor: Marco Aurelio Smith Filgueiras (Professor / MÉDICO) - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Veiculação: JORNAL


UM É BOM, DOIS PODE SER MUITO, E TRÊS DEMAIS

Quem não conhece o ditado: “Um é pouco, dois é bom, três é demais”? Acredito que todos  já  ouviram ou já o viram em algum momento. Podemos não saber seu significado, nem como e porque surgiu.


Segundo Marcio Cotrim, Colunista do Correio Brasiliense: “A expressão  ficou famosa no Brasil a partir de 1928 com o sucesso da canção  Casa de Caboclo, do compositor alagoano Heckel Tavares. Nela, o refrão que ganhou popularidade, dizia assim: Numa casa de caboclo/um é pouco/dois é bom/três é demais. Mas sua origem vem de muito longe. Dois livros sagrados e multimilenares, a Bíblia e o Talmude, já registravam em suas páginas  que a reunião de três pessoas era grupo grande demais para a discussão  de assuntos íntimos. Um provérbio britânico reforça esse conceito ao declarar que três é multidão: “three is crowd”. É o tipo do adágio que, caído na boca do povo, ensina, com serena ingenuidade, o caminho da discrição e da morigeração que, apesar de tão aconselhado em púlpitos, cátedras e no próprio seio da família, continua a ser solenemente ignorado”.

Acreditamos que já sentimos a necessidade de usar essa sábia citação em alguma ocasião de nossa vida. Aqui vamos empregá-la visando o tratamento medico com relação ao uso de  medicamentos, mas tivemos que modificá-la para adaptá-la ao nosso objetivo. De acordo com o titulo acima, pretendemos chamar atenção dos colegas que para a maioria dos nossos pacientes “Um medicamento é bom, dois pode ser muito e três demais”. Todos entendem que usar um fármaco, ou seja, praticar a monofarmacoterapia deve estar sempre em nossa mente em vez da polifarmacoterapia que poderá ser danosa. Reconhecemos que às vezes,  mas só às vezes, temos que lançar mão desta ultima, em moléstias associados, como exemplo, paciente diabético com polineuropatia, hipo ou hipertiroidismo, nefropatia e cardiopatia.

Quando prescrevemos um medicamento subentende-se que é do nosso conhecimento seus efeitos farmacodinâmicos, isto é, o que  ele faz no nosso organismo e seus efeitos farmacocinéticos, o que o organismo faz  com ele. Mesmo que desconheçamos esses efeitos é só consultarmos o livro de Farmacologia ou mesmo o Dicionário de Especialidades Farmacêuticas (DEF), aliás, este procedimento deveria transformar-se num hábito nosso de cada dia, mesmo na hora da consulta ou do atendimento. Não somos obrigados a saber de tudo sobre Farmacologia e Terapêutica. Creia, o paciente e seus familiares adoram essa conduta  do medico, porque sentem que ele esta interessado no seu caso.  Já nos referimos a isso em outras oportunidades, o medico não deve  envergonhar-se em reconhecer seus limites, em “saber” que não sabe.
Portanto, quando usamos um fármaco podemos monitorá-lo  e acompanhar seus efeitos bons (favoráveis) ou maus (adversos) no organismo. Quando acrescentamos um segundo, entra em ação a temida interação medicamentosa (infelizmente muito esquecida da classe medica) e podemos perder aquele controle. Imaginemos então com três, quatro ou até muito mais. Quem não conhece ou pelo menos já ouviu falar de pacientes que tomam até dez ou mais diferentes remédios desnecessariamente? Porque e para que tantos medicamentos? Só para tratar  sintomas? E a etiologia? Vocês já fizeram esses questionamentos  para si mesmos? Se fosse com você próprio, arriscaria em  tomá-los?

Pensem bem antes de medicar, anotem na suas fichas ou no seu banco de dados os fármacos que porventura seu consulente já venha usando  com sua dosagem e horário e reflita sobre os riscos e benefícios daquela medicação que tenciona prescrever a mais ao seu cliente. Não medique só por medicar. Vamos acabar com essa mania, com esse vicio. Alguns colegas acreditam que se não prescrever pelo menos um “medicamentozinho”, um diazepanzinho, uma dipironazinha, uma carbamazepinazinha, um hipotensorzinho, um diureticozinho, um hipolipemiantezinho, e assim vai,  perderá aquele paciente. Alertamos a vocês com a nossa experiência da pratica de consultório: está em andamento uma mudança, um novo comportamento, estão surgindo pessoas que detestam remédio mais do que aquelas que adoram ou ate mesmo se automedicam.

Lembramos de duas citações que caberiam aqui: “a diferença entre remédio e veneno está na dosagem” e “a medicina distrai a doença enquanto a natureza cura”. Esta ultima citação é muito sábia, porque muitas vezes não prescrevemos qualquer medicamento ou até mesmo usamos um inadequado, na dosagem e hora imprópria, para um determinado distúrbio e de maneira surpreendente, o paciente fica bom. Que aconteceu nas duas situações?  A resposta é uma só:  Efeito placebo. E o que é o efeito placebo, senão  a natureza agindo através da fé, da confiança no seu medico.   A psicologia medica tem uma máxima para este fenômeno: “O melhor remédio é o medico”.
A grande verdade é que saímos das faculdades de medicina sem a devida segurança para exercer a  Medicina  de pronto  como dizem os espanhóis, all of a sudden como diriam os ingleses, de cara como costumamos dizer na nossa gíria. E pior estão surgindo cada vez mais, novas escolas medicas despreparadas, com fins apenas lucrativos, com alguns professores desqualificados para o ensino. Mesmo com Mestrado ou Doutorado em reconhecidas Universidades pelo mundo afora, falta-lhes uma qualidade que é inata, não se compra nem se vende,  não está nos livros, se adquire com muito esforço, trabalho e vivencia no exercício da profissão, a EXPERIÊNCIA.

A finalidade do professor não é formar alunos e sim discípulos. Assim, deverá transmitir conhecimentos ao corpo discente não apenas para cumprir o programa, fazer  provas  e passar de ano, muito mais que isso, deverá com muita devoção, motivá-lo, incentivá-lo a estudar, a pesquisar e colocar a serviço da comunidade o que aprendeu com a experiência do mestre. O professor  prepara discípulos  que vão dar prosseguimento ao seu trabalho.

Ensinar Terapêutica é muito difícil porque devemos passar para nossos discípulos a mensagem de que o melhor às vezes é não medicar e sim esperar, observar: não medicar apenas por medicar, repetindo o que dissemos logo acima.  Caso o paciente já esteja tomando alguma medicação, vale a pena acrescentar uma outra?
Não estamos temporariamente nesse Universo como médicos “apenas para tratar sintomas” e sim  para “Curar às vezes, aliviar muitas vezes e consolar sempre”.

 
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