Por Dra. Vivianne Almeida da Nóbrega
MÉDICA CRM-PB: 14413
CLÍNICA MÉDICA – RQE: 10175
ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA RQE: 10691
O termo “transgênero e com diversidade de gênero” (TDG) refere-se a pessoas cuja identidade de gênero não corresponde ao sexo que lhes foi atribuído ao nascimento. Alguns desses indivíduos passam pelo processo de transição, ou seja, por mudanças físicas e sociais condizentes com sua identidade de gênero. Nesse contexto e considerando-se os efeitos dos hormônios sexuais no metabolismo ósseo, sabe-se que o uso da terapia hormonal de afirmação de gênero (THAG) e a realização de algumas cirurgias de redesignação sexual têm o potencial de impactar na saúde óssea dessa população.
De tal modo, ao cuidar de um indivíduo TDG, os profissionais de saúde devem estar atentos à necessidade de avaliação clínica minuciosa a respeito da saúde óssea. Além disso, embora haja lacunas no conhecimento sobre o tema, indica-se a realização de densitometria óssea nos seguintes cenários: 1) quando há história de gonadectomia ou de terapia que leve a hipogonadismo antes do início da THAG; 2) em indivíduos hipogonádicos que não desejem realizar a THAG e 3) na presença de critérios já utilizados para os indivíduos cisgênero, como uso de alguns medicamentos, a exemplo de glicocorticoides, ou na presença de comorbidades com impacto no metabolismo ósseo, como o hiperparatireoidismo¹.
Nesse cenário, diante da ausência de um banco de dados representativo da população TDG, são escassas as evidências sobre a melhor forma de interpretar os resultados obtidos na densitometria óssea. Posicionamento da ISCD¹ sugere que para indivíduos com 50 anos ou mais, calcule-se o T-score conforme o banco de dados feminino (semelhantemente ao que ocorre para os indivíduos cisgênero). Já para pessoas mais jovens, o Z-score deveria ser calculado de acordo com o banco de dados do gênero de identificação, havendo a possibilidade de o gênero de nascimento ser utilizado para indivíduos não-binários ou quando solicitado pelo médico assistente.
Sobre esse aspecto, a literatura científica atualmente disponível é limitada. Já foi descrito que mulheres transgênero em uso de THAG há menos de 3 meses apresentam densidade óssea mais semelhante à das mulheres cisgênero, o que poderia levar à inferência de que o banco de dados feminino poderia ser mais apropriado². Em relação aos homens transgênero, há maior discordância ainda entre os dados, com alguns trabalhos demonstrando maior correspondência da massa óssea com a população feminina cisgênero ³.
Além disso, ainda persiste a dúvida se o cálculo do Z-score ao se utilizar o banco de dados do gênero de identificação ou do de nascimento repercutiria em mudança nos diagnósticos densitométricos e nas condutas tomadas. Assim, destaca-se a importância de se estudar mais sobre a saúde óssea na população TDG, incluindo-se o aperfeiçoamento da interpretação dos resultados obtidos no exame de densitometria óssea, proporcionando um melhor cuidado em saúde a esses indivíduos.
Referências
- International Society for Clinical Densitometry. 2023 ISCD official positions – adult. Middletown (CT): ISCD; 2023.
- Fighera TM. Terapia hormonal cruzada, densidade mineral óssea e composição corporal em indivíduos transgênero [dissertação]. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2018.
- Rosen HN, Hamnvik OPR, Jaisamrarn U, Malabanan AO, Safer JD, Tangpricha V, et al. Bone densitometry in transgender and gender non-conforming individuals: 2019 ISCD official position. J Clin Densitom. 2019;22(4):544–553.