Por Dr Sebastião Costa
MÉDICO CRM-PB: 1630
PNEUMOLOGIA RQE: 4386
MEDICINA PREVENTIVA E SOCIAL Nº: 603
Membro da Câmara Técnica de Pneumologia do CRM-PB
Ao contrário das infecções bacterianas, as viroses têm autonomia. Os vírus invadem o sistema respiratório e suas ações nocivas são interrompidas espontaneamente sem a necessidade de antibióticos. No contexto das viroses respiratórias precisamos falar dos mais de 200 vírus produzindo o Resfriado Comum, com sintomas mais amenos – poucos dias de indisposição, sintomas nasais, tosse discreta, sem grandes repercussões na vida social do paciente.
Mas, as grandes consequências na rotina de quem adquire uma virose fica na responsabilidade de quatro vírus: O Sars Cov-2, que dispensa comentários; o Sincicial Respiratório e o Rinovírus, os dois muito agressivos, com mania de mandar idosos e pacientes com comorbidades para a UTI; além do velho e conhecido Influenza, que em pandemias do século passado remeteu mais de 50 milhões de viventes aos necrotérios ao redor do mundo.
E são esses quatro microrganismos (além do Resfriado Comum) que estão superlotando nesses primeiros meses do ano os consultórios dos especialistas, os serviços de Pronto Atendimento e promovendo uma demanda bem acima dos padrões nas UTIs dos hospitais. E por que esse ano essas viroses chegaram mais cedo e com mais agressividade do que em anos anteriores?
Vamos entender:
Em setembro do ano passado a OMS anunciou a chegada de uma nova cepa do Influenza, vírus responsável pela gripe tradicional, que todo ano após um giro pelo hemisfério norte aterrissa no Brasil nos meses de abril/maio. Mas eis que, em setembro do ano passado, conforme as características de todo vírus, o subtipo H3N2 do Influenza sofreu algumas mutações, produzindo o subclado K, uma nova variante que os estudos iniciais indicam um imenso potencial de transmissão da pessoa infectada através da tosse, do espirro, das gotículas de saliva durante a fala.
E lá pelos países do hemisfério norte, os boletins epidemiológicos já registraram nos últimos meses do ano passado um aumento importante da epidemia sazonal da Influenza. No Brasil, a convivência com esse momento epidemiológico que estimulou a vigilância sanitária de vários Estados do Nordeste a decretar situação de emergência, fica na responsabilidade da antecipação da epidemia sazonal da Influenza e sobretudo a realidade de que a maioria absoluta da população mais vulnerável – crianças, idosos, pacientes com comorbidades, está sem a devida proteção da vacina, considerando que o vírus chegou antes da Campanha Nacional de Imunização.
Necessário informar que estamos falando da virose respiratória provocada pelo Influenza, mas devemos ficar cientes que aqueles vírus acima referidos – Sincicial Respiratório, o Rinovírus, o SarsCov-2, estão também participando ativamente no surgimento dos mesmos sintomas da Influenza – tosse, secreção, sintomas nasais, febre alta persistente com indisposição intensa, dores musculares e muita atenção quando surgir dispneia (cansaço) progressiva.
É ela, a dispneia que vai exigir maiores cuidados, essencialmente em idosos, crianças de 6 meses-6 anos, (baixa imunidade) e nos cardiopatas, portadores de enfisema pulmonar, asma brônquica, insuficiência renal, imunodeprimidos… São esses pacientes que estão mais susceptíveis de desenvolverem a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) com necessidade de atendimento nos serviços de emergência.
Vale informar que o boletim InfoGripe da Fiocruz identificou em 2025 a Influenza participando com 72,5% do total das mortes pela Síndrome Respiratória Aguda Grave. E nesse mesmo ano, ainda sem a participação da gripe K a Influenza foi diagnosticada 36,9% a mais do que no ano anterior.
Mas, todo esse protagonismo da Influenza começa a perder espaço a partir de um olhar mais atento na capacidade daqueles outros vírus de promoverem também a Síndrome Respiratória Aguda Grave. No boletim epidemiológico mais recente da Fiocruz, publicado em 20 de março/2026, o Rinovírus com 41,9% dos casos, surge como o principal responsável por esse quadro de intensa gravidade e o Sars-Cov-2 se apresentando com o mais elevado percentual de óbitos registrados (37,3%), dentro do contexto das notificações da SRAG.
Nesses tempos de intensa circulação desses vírus com elevado poder de transmissibilidade, com imenso potencial de promover a SRAG e com a população ainda desprotegida em relação à imunização contra a Influenza e o Vírus Sincicial Respiratório (vacina na rede privada), nada mais sensato do que recomendar o uso de máscara em ambientes com grande concentração de infectados (sala de espera de consultórios e hospitais) e sobretudo nunca, jamais relaxar as vacinas que vão proteger os grupos mais vulneráveis contra essas viroses que andam superlotando serviços de pronto-atendimento, enfermarias de hospitais e leitos de UTIs, além de colocar em risco a vida de qualquer paciente infectado por esses vírus e que desenvolvem os sintomas da Síndrome Respiratória Aguda Grave.