Por Dr. Eduardo Souza de Almeida Filho
MÉDICO CRM-PB: 20590
A medicina é, em sua essência, uma profissão marcada por desafios. Eles se iniciam antes mesmo do ingresso na graduação, na decisão de seguir essa nobre arte, e acompanham o médico ao longo de toda a sua trajetória, desde a formação acadêmica até o exercício profissional.
A conquista do diploma em Medicina é a recompensa por longos anos de renúncias, estudo e dedicação, representando não a linha de chegada, mas o início de uma trajetória ainda mais desafiadora. Ao mesmo tempo que é um período de comemoração, é também um momento de grandes responsabilidades e de tomada de importantes decisões.
A graduação em Medicina abre um leque de possibilidades ao médico recém-formado, que pode escolher diversos caminhos, entre eles ingressar na residência médica logo após o término do curso, inserir-se diretamente no mercado de trabalho ou até mesmo optar por ambos. Todos bastante desafiadores.
Os que escolhem seguir rumo à especialização deparam-se, novamente, com uma exigente rotina de estudos, com o objetivo de conquistar a concorrida aprovação na residência médica. Concorrência essa que tem crescido cada vez mais nos últimos anos, sobretudo devido à desproporção entre o aumento da quantidade de novos médicos formados e o aumento do número de vagas.
A última Demografia Médica no Brasil, publicada em 2025, revelou que o país registrou 32.611 novos médicos em 2023, enquanto o número de vagas ofertadas para acesso direto à residência médica no ano seguinte foi de 16.189. Ou seja, havia vagas para apenas 49,6% dos recém-formados. Tais dados contrastam com o biênio 2017-2018, quando o total de vagas do ano seguinte correspondia a 77,3% do número de formados no ano anterior.
Os indicadores acima descritos retratam uma realidade cada vez mais árdua para os recém-formados postulantes às vagas de residência médica, exigindo dedicação, disciplina e perseverança durante a preparação.
Alguns, por sua vez, optam por ingressar no mercado de trabalho antes da especialização. Cenário igualmente desafiador que vai além do domínio técnico adquirido durante a graduação. A transição do ambiente acadêmico para o exercício profissional exige rápida adaptação a novas responsabilidades, tomada de decisões independentes e enfrentamento de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.
O censo médico brasileiro de 2025 revelou uma proporção nacional de 2,98 médicos para cada 1.000 habitantes, número que era de 1,90 uma década antes. Tais dados refletem o aumento exponencial do número de médicos egressos no Brasil, implicando aumento da concorrência pelos postos de trabalho, o que torna a inserção no mercado profissional cada vez mais desafiadora para os recém-formados.
Diante dessa realidade, os profissionais em início de carreira encontram dificuldades para se inserir em serviços com melhores condições de trabalho, remuneração e perspectivas de progressão profissional.
Para além disso, o período de transição entre a graduação e a prática clínica é frequentemente marcado por uma sensação de ansiedade e receio. É habitual que o médico recém-formado vivencie esses momentos, por exemplo, durante o seu primeiro plantão. E isso pouco tem a ver com o quanto o estudante se dedicou à sua formação.
Costuma-se dizer que, após a formatura, o médico adquire o “poder do carimbo”, mas, com ele, vem uma grande responsabilidade, afinal, a maneira como é utilizado influencia o maior bem que os seus pacientes podem ter: a saúde.
Durante a graduação, em especial no período do internato, o estudante desenvolve suas habilidades clínicas em um ambiente supervisionado, contando com a orientação constante de preceptores para a discussão de casos, a confirmação de condutas e a correção de eventuais equívocos. Com a conclusão da graduação, o médico se vê, pela primeira vez, sem sua “rede de apoio” e com a responsabilidade integral pelas decisões sobre seus pacientes. Cenário desafiador que, naturalmente, gera certa apreensão e dúvidas.
Sentimentos esses que não devem ser interpretados de maneira negativa, mas como uma demonstração do senso de responsabilidade do médico recém-formado e da consciência da importância da prática de uma boa medicina em prol dos pacientes sob os seus cuidados.
Por fim, o diploma concede aos graduados um grande privilégio: exercer a medicina e servir à sociedade por meio da sua profissão. À luz da máxima de que “a quem muito é dado, muito será cobrado”, é esperado que o início da vida profissional seja marcado por desafios e grandes responsabilidades. Longe de representarem apenas obstáculos, essas experiências funcionam como uma verdadeira forja, moldando profissionais mais preparados, resilientes e conscientes da relevância de sua missão ao longo de toda a sua trajetória.
Referência:
SCHEFFER, Mário (coord.). Demografia Médica no Brasil 2025. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publica coes/demografia_medica_brasil_2025.pdf.