Por Dr. João Modesto Filho
MÉDICO CRM-PB 973
Endocrinologia e Metabologia RQE: 1026
Medicina Nuclear RQE: 2304 (Área de atuação: Densitometria Óssea – RQE Nº: 3753)
Este artigo sintetiza algumas das principais atualizações apresentadas no II Encontro Brasileiro de Diabetes, Dislipidemia e Obesidade, realizado na segunda quinzena de março, em Brasília. O evento consolidou uma mudança histórica: o foco deixou de ser apenas o controle de números (glicose, peso ou colesterol) para priorizar a prevenção, a proteção celular e a remissão metabólica.
DIABETES
Estamos numa nova era da saúde metabólica, qual seja a da Proteção Celular e Remissão de Doenças. Nesse sentido, o cenário da medicina metabólica e cardiovascular está passando por uma clara transição. O que antes era focado no tratamento de complicações, hoje se volta para a intervenção precoce e agressiva, visando mudar a história natural de doenças como o diabetes, a obesidade e a aterosclerose.
No caso do Diabetes, temos que ir além do controle glicêmico, pois seu tratamento entrou na era da imunoproteção e da preservação da função pancreática. Assim é que, no Diabetes Tipo 1 (DM1), o uso do anticorpo monoclonal Teplizumabe surge como um divisor de águas, capaz de retardar em até dois anos a progressão da doença em indivíduos de alto risco. Estudos como o PROTECT mostram que a intervenção precoce em crianças preserva a secreção de insulina por mais tempo. A combinação de imunomoduladores e agentes protetores, como o Verapamil, sinaliza um futuro onde o DM1 poderá ser gerenciado, talvez, com uma menor dependência de insulina exógena.
No caso do Diabetes Tipo 2 (DM2), o desenvolvimento de novos agonistas de GLP-1, como o oral Orforglipron e combinações como a CagriSema (Cagrilintida + Semaglutida), elevou o patamar de eficácia. Estamos alcançando perdas de peso e reduções de hemoglobina glicada (HbA1c) próximas aos resultados de cirurgias metabólicas. Na nefropatia, a Finerenona consolidou-se como proteção renal eficaz no DM1. Além disso, o uso de semaglutida como adjuvante no DM1 com obesidade demonstrou melhorar o “Tempo no Alvo” (Time in Range) e reduzir a dose total de insulina em cerca de 23%.
No que diz respeito a remissão do Pré-diabetes, dados acumulados em 20 anos reforçam que atingir a normoglicemia no primeiro ano de diagnóstico de pré-diabetes reduz em até 60% o risco de insuficiência cardíaca e eventos cardiovasculares nas décadas seguintes, segundo artigo publicado no Lancet Diabetes Endocrinol, 2026 e debatido no evento. Uma discussão bastante atual foi sobre a Segurança em Procedimentos, como o uso de GLP-1 em Cirurgias. Um ponto de grande relevância prática foi a avaliação no manejo de pacientes em uso de agonistas de GLP-1 (semaglutida e tirzepatida) antes de cirurgias.
As evidências de 2025 simplificaram o protocolo: para pacientes com doses estáveis, não é mais necessária a suspensão por 21 dias. Uma dieta líquida de 24 horas somada ao jejum padrão (8 a 12 horas) é considerada segura. A suspensão de 7 dias fica reservada apenas para quem está aumentando a dose ou apresenta sintomas gastrointestinais ativos.
OBESIDADE
No tocante a Obesidade, sabidamente uma doença crônica, a nova diretriz, com publicação prevista pela ABESO para este mês, traz uma mudança profunda no diagnóstico e na continuidade do cuidado. O diagnóstico será multidimensional e o IMC isolado perde protagonismo. A nova abordagem valoriza a gordura visceral e as complicações clínicas.
Pacientes com IMC mais baixo, mas com complicações metabólicas, agora têm indicação clara de tratamento. As metas serão centradas no paciente e não será apenas na busca do “peso ideal”, mas a melhora da qualidade de vida e a remissão de sintomas. Uma perda de 10% do peso corporal já é considerada um sucesso terapêutico robusto para a maioria das comorbidades.
No tópico específico da duração do tratamento, a diretriz reforça que a obesidade é uma doença crônica. A suspensão da medicação invariavelmente leva ao reganho de peso. Portanto, o tratamento farmacológico deve ser planejado a longo prazo, muitas vezes utilizando terapias combinadas para superar os platôs biológicos.
DISLIPIDEMIA
Finalmente, o último tópico do Encontro de Brasília relacionou-se a Cardiologia Preventiva partindo do conceito de que a prevenção é primordial. Assim, as novas diretrizes da SBC, AHA e ESC convergem para a ideia de que o cuidado deve começar cedo, idealmente na infância, para evitar a formação da placa de gordura (aterosclerose). Discutiu-se sobre novos Marcadores e que a dosagem da Lipoproteína(a) é recomendada ao menos uma vez na vida para identificar riscos genéticos ocultos. Por seu turno, marcadores como Aро-В e Colesterol Não-HDL ganham força como preditores mais precisos do que o LDL isolado.
No item de Estratificação de Risco, observou-se que a nova calculadora PREVENT busca maior precisão, enquanto o Escore de Cálcio permanece como a ferramenta definitiva para decidir o início do tratamento em casos de risco intermediário. Foi observada ainda a questão das “Metas Audaciosas”, pois, para pacientes de risco extremo (com eventos cardiovasculares recorrentes), as metas de LDL estão se tornando cada vez mais rigorosas, buscando níveis inferiores a 40 mg/dL. A tendência atual é a terapia combinada precoce (estatina associada à ezetimiba), em vez de esperar a falência da monoterapia.
CONCLUSÃO
O Encontro de Brasília deixou claro que a medicina moderna não aceita mais a inércia terapêutica. Seja no diabetes, na obesidade ou no risco cardiovascular, a intervenção precoce, o uso de terapias combinadas e o foco na biologia da doença são as chaves para garantir longevidade e qualidade de vida aos pacientes.