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Por Dra. Narriane Chaves P. Holanda

MÉDICA CRM-PB: 6403

Clínica Médica RQE: 4009

Endocrinologia E Metabologia RQE: 5290

Diretora do Departamento Científico da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

⁠Membro da Câmara Técnica de Endocrinologia do CFM e Coordenadora da Câmara Técnica de Endocrinologia e Metabologia do CRM-PB

 

Recentemente, tive a oportunidade de participar do Congresso Mundial de Osteoporose e Doenças Musculoesqueléticas (WCO-IOF-ESCEO 2026), realizado em Praga – na Tchéquia, o qual trouxe discussões importantes sobre a interface entre metabolismo ósseo, músculo, obesidade, diabetes, menopausa e novas terapias para osteoporose. Mais do que apresentar novos medicamentos, o congresso reforçou uma mensagem central: a saúde óssea e muscular precisa ser compreendida de forma integrada, considerando composição corporal, risco de quedas, doenças metabólicas, qualidade muscular e história clínica individual.

 

Um dos temas de maior destaque foi o impacto dos agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1RA) sobre a saúde óssea e muscular. Esses medicamentos revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, com benefícios cardiovasculares, metabólicos e ponderais robustos. No entanto, a perda de peso rápida e expressiva pode vir acompanhada de redução de massa magra, aumento do remodelamento ósseo e possível perda de densidade mineral óssea, especialmente quando não há associação com exercício resistido e adequada ingestão proteica.

 

Estudos recentes sugerem que parte do efeito ósseo observado com GLP-1RA parece estar mais relacionada à perda ponderal do que a um efeito deletério direto da medicação, e recente metanálise, apresentada neste congresso, demonstrou que há preservação de massa óssea, sem aumento do risco de fraturas, apesar de diminuição moderada de massa muscular. Assim, até o momento, parecem ser medicações seguras do ponto de vista ósseo. Quanto à perda de músculo, estudos de curto prazo (< 6meses) apontam que, apesar dessa perda de massa muscular esquelética, ocorre melhora da força e performance muscular, e que o maior risco estaria associado ao reganho de peso após parada do tratamento da obesidade, o que precipita o surgimento da obesidade sarcopênica. Resumindo, tratar obesidade com segurança exige proteger músculo com boa ingesta proteica, exercícios resistidos e prevenção do reganho de peso.

 

Outro ponto relevante, debatido no simpósio da FEBRASGO, foi a terapia com testosterona em mulheres pós-menopausa. A discussão reforçou que, até o momento, a única indicação baseada em evidências para o uso de testosterona nessas mulheres é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo, após avaliação clínica adequada e exclusão de outras causas. Apesar do interesse crescente em seus possíveis efeitos sobre composição corporal, massa muscular, energia e densidade mineral óssea, ainda não há evidência suficiente para recomendar testosterona com o objetivo de tratar osteoporose, prevenir fraturas ou melhorar massa muscular em mulheres pós-menopausa. O uso deve ser criterioso, individualizado e livre de promessas não sustentadas pela ciência.

 

A osteoporose associada ao diabetes também ganhou espaço importante. O diabetes tipo 2 representa um paradoxo: muitos pacientes apresentam densidade mineral óssea normal ou até elevada, mas maior risco de fraturas. Isso ocorre porque a DMO não capta completamente alterações da qualidade óssea, microarquitetura, acúmulo de produtos de glicação avançada, maior risco de quedas, neuropatia, retinopatia e sarcopenia. Portanto, nesses pacientes, o risco de fratura pode ser subestimado quando se olha apenas a densitometria. Ferramentas como FRAX, TBS, avaliação de quedas, função muscular e presença de complicações crônicas devem compor uma abordagem mais ampla.

 

No terceiro dia de congresso, ainda tive a oportunidade de apresentar dados do nosso grupo de pesquisa da UFPB, sobre o uso de romosozumabe, um agente osteoformador potente, em pacientes com osteoporose após cirurgia bariátrica. Para o nosso conhecimento, este foi o primeiro estudo publicado no mundo sobre o uso desta medicação na população pós bariátrica. O estudo chamou atenção para um achado paradoxal: alguns pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, especialmente o by-pass gástrico em Y de Roux (BGYR) apresentaram aumento dos marcadores de reabsorção óssea após o uso de romosozumabe, comportamento diferente do esperado em mulheres com osteoporose pós-menopausa clássica. Esse resultado sugere que o osso pós-bariátrica pode responder de maneira distinta às terapias osteoanabólicas, possivelmente pela presença de má absorção, hiperparatireoidismo secundário, deficiência de micronutrientes, perda ponderal prévia intensa e remodelamento ósseo persistentemente elevado. Embora o romosozumabe tenha resultado em ganho importante de massa óssea nesses pacientes e permaneça uma opção promissora em osteoporose grave e de muito alto risco, esses dados reforçam a necessidade de monitorização individualizada, incluindo cálcio, vitamina D, PTH e marcadores de remodelamento.

 

Em síntese, o ESCEO 2026 confirmou que a osteoporose moderna não pode mais ser tratada apenas como uma doença da densidade mineral óssea. O futuro do cuidado osteometabólico exige olhar para o paciente inteiro: peso, músculo, quedas, diabetes, menopausa, cirurgia bariátrica, risco cardiovascular e trajetória terapêutica. Para médicos, estudantes e pacientes, a principal mensagem é: preservar osso é também preservar mobilidade, independência, qualidade de vida e longevidade.

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