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Por Dra. Andréa Correia

MÉDICA CRM-PB: 8383

Ginecologia e Obstetrícia RQE: 5744

Conselheira e integrante da Comissão de Segurança Obstétrica do CRM-PB

 

A mortalidade materna é um importante indicador da qualidade da assistência à saúde das mulheres. Entre as emergências obstétricas, a hemorragia pós-parto permanece como uma das principais causas de morbidade materna grave e mortalidade materna no mundo. Seu enfrentamento exige prevenção, reconhecimento precoce, intervenção imediata, equipes capacitadas, protocolos efetivos e acesso oportuno ao suporte hemoterápico quando indicado.

 

A hemorragia obstétrica pode evoluir rapidamente. Uma paciente inicialmente estável pode apresentar deterioração clínica e choque hemorrágico em curto intervalo de tempo. Por isso, a segurança da assistência depende não apenas de protocolos escritos, mas de uma rede efetivamente preparada, com profissionais capacitados, medicamentos e insumos, acesso a centro cirúrgico, terapia intensiva e hemocomponentes em tempo adequado.

 

Nesse contexto, ganhou especial relevância a atualização anunciada em 18 de setembro de 2026 pelo Corpo Governante das Testemunhas de Jeová. Segundo o comunicado, a decisão de aceitar ou não transfusões alogênicas de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma ou plaquetas passa a ser uma questão de consciência individual. Permanece, entretanto, a posição religiosa contrária à transfusão de sangue total.

 

A mudança possui implicações importantes para a prática médica, especialmente na Obstetrícia, área em que perdas sanguíneas volumosas podem ocorrer rapidamente. A nova orientação não representa autorização coletiva para transfusões em pacientes Testemunhas de Jeová. Cada mulher deve ser esclarecida e ter respeitada sua decisão individual, conforme as normas éticas e legais aplicáveis.

 

A atualização reforça a necessidade de substituir pressupostos baseados apenas na religião por uma abordagem individualizada. Mais do que identificar uma paciente como Testemunha de Jeová, é fundamental saber e registrar claramente quais tratamentos, componentes sanguíneos e procedimentos ela aceita ou não.

 

Sempre que possível, esse diálogo deve ocorrer ainda no pré-natal, especialmente entre mulheres com fatores de risco para hemorragia. O planejamento antecipado reduz incertezas e atrasos em situações nas quais cada minuto pode ser decisivo. Respeitar a autonomia, portanto, não se contrapõe à segurança da paciente, mas integra uma assistência centrada na mulher.

 

Essa discussão também se relaciona ao Gerenciamento do Sangue do Paciente (Patient Blood Management – PBM), abordagem multidisciplinar que busca preservar o sangue do próprio paciente, prevenir e tratar anemia, reduzir perdas sanguíneas e otimizar a tolerância à anemia. Na assistência obstétrica, inclui identificação e tratamento precoce da anemia, reconhecimento imediato da hemorragia, uso adequado de uterotônicos e ácido tranexâmico, técnicas cirúrgicas de controle do sangramento, tamponamento uterino e, em situações selecionadas, técnicas de recuperação intraoperatória de sangue.

 

Na Paraíba, o tema se relaciona diretamente ao trabalho da Comissão de Segurança Obstétrica do Conselho Regional de Medicina do Estado da Paraíba (CRM-PB), que vem identificando vulnerabilidades estruturais e assistenciais relacionadas à morbidade materna grave e à mortalidade materna.

 

Entre os casos já analisados pela Comissão, quatro óbitos maternos apresentaram associação com dificuldades no acesso oportuno a hemocomponentes. Esse dado não significa que a indisponibilidade de sangue tenha sido, isoladamente, a causa dessas mortes, já que os óbitos maternos são frequentemente multifatoriais. Contudo, a repetição dessa dificuldade representa um sinal importante de vulnerabilidade da assistência.

 

Em uma hemorragia obstétrica grave, não basta que sangue ou hemocomponentes existam em algum ponto da rede. Eles precisam estar disponíveis no local e no momento adequados, em tempo compatível com a gravidade da emergência. Pactuações formais que não se traduzem em acesso oportuno não são suficientes para garantir segurança.

 

A atualização das Testemunhas de Jeová cria novas possibilidades para mulheres que, após informação adequada e conforme sua própria consciência, autorizem a utilização de determinados hemocomponentes.

 

Ainda não existem, porém, dados epidemiológicos que permitam afirmar que a mudança reduzirá a mortalidade materna. Seu impacto sobre mortalidade, morbidade grave, histerectomias e internações em terapia intensiva precisará ser avaliado futuramente.

 

A discussão revela também uma questão mais ampla: não basta debater quem aceita receber sangue; é necessário avaliar quem efetivamente consegue recebê-lo quando precisa. O suporte hemoterápico deve fazer parte do planejamento estratégico da rede obstétrica, com fluxos efetivos entre maternidades e serviços de hemoterapia, identificação precoce de pacientes de risco e mecanismos rápidos de transferência.

 

Reduzir mortes maternas evitáveis exige fortalecer a prevenção da hemorragia, o diagnóstico precoce, os protocolos de resposta, o Gerenciamento do Sangue do Paciente, a capacitação das equipes e a organização das redes de hemoterapia. No caso das pacientes Testemunhas de Jeová, é igualmente fundamental conhecer antecipadamente e documentar quais tratamentos e hemocomponentes cada mulher aceita ou não receber.

 

Respeitar a autonomia da paciente e garantir acesso oportuno aos recursos necessários à preservação da vida são dimensões complementares de uma assistência obstétrica ética, segura e centrada na mulher.

 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022. 692 p. Disponível em: Ministério da Saúde/BVS. Acesso em: 21 set. 2026.

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Gerenciamento de Sangue do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Portal do Ministério da Saúde. Acesso em: 21 set. 2026.

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 5.350, de 12 de setembro de 2024. Altera as Portarias de Consolidação GM/MS nº 3 e nº 6, de 28 de setembro de 2017, para dispor sobre a Rede Alyne. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024.

 

CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO ESTADO DA PARAÍBA. Comissão de Segurança Obstétrica. Dados institucionais provenientes das fiscalizações e da análise de óbitos maternos ocorridos em 2025 e 2026. João Pessoa: CRM-PB, 2026. Dados internos não publicados.

 

TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. Cada Testemunha de Jeová decide agora se vai aceitar ou doar componentes principais do sangue: posição sobre transfusão de sangue total permanece inalterada. Warwick, NY, 18 set. 2026. Disponível em: JW.ORG. Acesso em: 21 set. 2026.

 

WORLD HEALTH ORGANIZATION. A roadmap to combat postpartum haemorrhage between 2023 and 2030. Geneva: World Health Organization, 2023.

 

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidance on implementing patient blood management to improve global blood health status. Geneva: World Health Organization, 2025.

 

WORLD HEALTH ORGANIZATION; INTERNATIONAL FEDERATION OF GYNECOLOGY AND OBSTETRICS; INTERNATIONAL CONFEDERATION OF MIDWIVES. Consolidated guidelines for the prevention, diagnosis and treatment of postpartum haemorrhage. Geneva: World Health Organization, 2025.

 

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Consolidated guidelines for the prevention, diagnosis and treatment of postpartum haemorrhage: implementation guide. Geneva: World Health Organization, 2026.

 

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