Dr. Matheus Spricido
MÉDICO CRM-PB: 1412
Medicina de Família e Comunidade RQE 8997
A Atenção Primária à Saúde (APS) ainda é frequentemente compreendida de forma reducionista, como uma simples porta de entrada do sistema. Essa visão, embora difundida, desconsidera um dos aspectos mais complexos e estratégicos da prática clínica: a decisão sobre o que deve permanecer sob cuidado da APS e o que deve ser compartilhado com outros pontos da rede.
Na prática cotidiana, essa decisão não é trivial. Ela envolve julgamento clínico, conhecimento do território, compreensão da rede assistencial disponível e, sobretudo, responsabilidade sanitária. Quando essa função não é exercida com clareza, a APS se fragiliza e o sistema como um todo perde sua capacidade de coordenação.
Reduzir a APS a um espaço de triagem leva, invariavelmente, ao encaminhamento precoce e muitas vezes desnecessário. O resultado é conhecido: sobrecarga da atenção especializada, fragmentação do cuidado e perda de vínculo com o paciente. Mais do que isso, perde-se a oportunidade de manejar condições que, por sua natureza, se beneficiam da longitudinalidade e da abordagem integral.
Nesse contexto, é fundamental reafirmar: a APS não é o lugar de passagem do paciente, mas o espaço onde o cuidado se organiza. Permanecem sob sua responsabilidade condições crônicas como hipertensão, diabetes, doenças respiratórias, além de grande parte dos transtornos mentais leves e moderados, do pré-natal de risco habitual e do acompanhamento contínuo ao longo do ciclo de vida. Não por limitação tecnológica, mas porque esses problemas exigem continuidade, vínculo e visão ampliada — atributos centrais da Medicina de Família e Comunidade.
Por outro lado, há situações que demandam maior densidade tecnológica ou avaliação especializada. No entanto, encaminhar não significa transferir responsabilidade. A referência deve ser compreendida como parte de um cuidado compartilhado, no qual a APS mantém seu papel coordenador, integrando informações, acompanhando o paciente e garantindo a continuidade do cuidado após a intervenção especializada.
Um ponto frequentemente negligenciado nesse debate é o papel do território e da organização da rede de atenção à saúde. O que “fica” ou “sai” da APS não é definido exclusivamente por protocolos clínicos, mas também pela capacidade instalada, pelo acesso a especialistas, pela qualidade da regulação e pela maturidade da rede.
Em sistemas mais organizados, a APS assume maior resolutividade; em redes fragmentadas, tende a encaminhar mais, muitas vezes por necessidade e não por escolha clínica.
É justamente nesse cenário que emergem distorções importantes. A insegurança clínica, associada a modelos de formação ainda centrados no hospital, pode levar à supervalorização da especialidade e à subutilização da APS. Ao mesmo tempo, a ausência de protocolos claros e de integração entre níveis assistenciais contribui para decisões heterogêneas e, por vezes, pouco eficientes.
Fortalecer a APS, portanto, não se resume à ampliação de acesso, mas exige qualificação da decisão clínica. Isso implica investir na capacidade do médico de família de manejar condições complexas, utilizar critérios de risco, acompanhar longitudinalmente e coordenar o cuidado de forma ativa.
Mais do que discutir o que deve sair da APS, talvez o principal desafio seja garantir que aquilo que permanece sob sua responsabilidade seja cuidado com qualidade, segurança e continuidade. É nessa decisão — cotidiana, silenciosa e altamente clínica — que se define grande parte dos desfechos em saúde.