Por Dr. Flawber Cruz
CRM-PB: 5122
PEDIATRIA RQE: 2842
Áreas de atuação: Neurologia Pediátrica RQE: 10515
O transtorno do espectro autista (TEA) tem se tornado cada vez mais prevalente, acometendo uma em cada 31 crianças. Há um sobrediagnóstico, ou estamos diante de uma “nova pandemia”? Este questionamento foi motivo de um artigo recente, publicado no Jornal de Pediatria, onde os pesquisadores Gadia e Riesgo nos alertam para a realidade dos números. Sem deixar de lado o risco de que profissionais sem treinamento estejam emitindo diagnósticos incorretos, os autores relatam que a mudança dos critérios diagnósticos para o autismo, na 5ª edição do DSM, permitiu uma maior inclusão de casos dentro do espectro, notadamente os pacientes com nível 1 de suporte, os quais totalizam cerca de 53% dos casos.
Por outro lado, a busca por mais recursos de avaliação tem evoluído ao longo dos anos, com a possibilidade recente de testes genéticos, embora ainda pouco acessíveis para a maior parte da população acometida. Porém, a grande preocupação dos autores consiste no treinamento de médicos para aumentar o acesso ao diagnóstico adequado, seja a partir de testes de triagem, como o M-CHAT, ou mesmo permitindo que Pediatras, Neurologistas Pediátricos e Psiquiatras da Infância tenham maior familiaridade com a clínica destes casos.
Em nosso País, conforme recente Mapa do Autismo, a idade média para diagnóstico corresponde a 4 anos de idade, quando o ideal seria o diagnóstico e intervenção precoce por volta dos 2 anos de idade. Ao mesmo tempo, apenas 1,4% dos diagnósticos de autismo foram feitos por Pediatras, conforme observado neste Mapa. Ou seja, há uma nítida dificuldade de acesso da população a médicos cuja especialidade permite o adequado diagnóstico da condição.
Além da carência de treinamento profissional, o estudo de Gadia e Riesgo aponta duas outras dificuldades em relação ao diagnóstico: a falta de um marcador biológico ou exame complementar que auxilie na decisão médica e a ausência de um grupo de sintomas específicos para o TEA: autismo não “tem cara”. Por se tratar de uma condição do neurodesenvolvimento, os sintomas tendem a ser multifacetados e inespecíficos, mas devem obrigatoriamente envolver déficits bem definidos nas áreas de comunicação e reciprocidade social, de um lado, e comportamentos repetitivos e alterações sensoriais de outro.
Quanto ao exame complementar, embora inexistente, não deve ser justificativa para atrasarmos a definição clínica e a intervenção precoce. Do contrário, o TEA nos mostra o quanto o olhar clínico do bom médico, bem treinado e interessado em investigar atrasos do desenvolvimento, é fundamental para enxergamos a real face do espectro, vislumbrando as possíveis soluções.
Cerca de metade das crianças com autismo pode ter deficiência intelectual. A cifra assusta. Contudo, aproximadamente 10% das crianças afetadas apresentam melhora significativa, sendo que o diagnóstico precoce, geralmente leva a melhoria no funcionamento adaptativo destas crianças, melhorando a interação social, comunicação e aprendizado de habilidades. Qual nosso papel? Diria que os passos iniciais são fortalecer a triagem dos casos suspeitos na atenção básica e desfazer crenças como “cada criança se desenvolve no seu tempo”, com informação de qualidade.