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Por Dra. Maria do Socorro F. Martins

MÉDICA CRM-PB: 3588

Pediatria RQE: 3767

Presidente da Sociedade Paraibana de Pediatria

Conselheira do CRM-PB

 

A violência sexual infanto-juvenil representa uma das mais graves e dolorosas violações aos direitos humanos sendo reconhecida atualmente como um grave problema de saúde pública. Seus impactos ultrapassam o sofrimento imediato, podendo comprometer o desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social das vítimas, com repercussões ao longo de toda a vida, incluindo maior risco de depressão, ansiedade, transtornos psiquiátricos, automutilação, uso abusivo de substâncias, evasão escolar, vulnerabilidade social e perpetuação do ciclo de violência.

 

Dados recentes mostram a dimensão preocupante desse cenário no Brasil. Informações do Disque 100 apontam crescimento expressivo das denúncias de violações contra crianças e adolescentes nos últimos anos. Em 2024, o país registrou mais de 657 mil denúncias de violações de direitos humanos, um aumento superior a 22% em relação ao ano anterior.

 

Além disso, estudos nacionais evidenciam que a violência sexual atinge majoritariamente crianças e adolescentes. Em 2023, mais de 73% das notificações de violência sexual no Brasil tiveram como vítimas pessoas menores de 19 anos. A maioria das vítimas eram meninas, e, em grande parte dos casos, o abuso ocorreu dentro do próprio ambiente familiar ou residencial.

 

Outro aspecto extremamente preocupante é o avanço da violência sexual no ambiente digital. Relatórios recentes da SaferNet Brasil demonstram crescimento importante das denúncias relacionadas à exploração sexual infantil na internet, incluindo produção e compartilhamento de imagens de abuso, aliciamento virtual e utilização de ferramentas de inteligência artificial para exploração sexual de menores.

 

Os números de 2026 também seguem alarmantes. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, apenas entre janeiro e abril deste ano foram registradas mais de 32,7 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes, representando aumento de quase 50% em comparação ao mesmo período do ano anterior.

 

Diante dessa realidade, o enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes exige ações intersetoriais permanentes e efetivas. Não basta apenas punir os agressores; é necessário fortalecer estratégias de prevenção, identificação precoce, acolhimento e proteção das vítimas.

 

Entre as medidas fundamentais nesse combate, destacam-se:

* fortalecimento da rede de proteção à infância, com integração entre saúde, educação, assistência social, Conselhos Tutelares, sistema de justiça e segurança pública;

* capacitação contínua dos profissionais de saúde e educação para reconhecer sinais físicos, emocionais e comportamentais sugestivos de abuso;

* ampliação de campanhas educativas permanentes voltadas às famílias, escolas e comunidades;

* educação digital e proteção no ambiente virtual, diante do crescimento da exploração sexual online;

* garantia de atendimento multiprofissional humanizado às vítimas, incluindo suporte psicológico, social e jurídico;

* fortalecimento dos canais de denúncia, como o Disque 100;

* ampliação de políticas públicas voltadas à primeira infância e adolescência, especialmente em populações mais vulneráveis socialmente.

 

Nesse contexto, a atuação dos pediatras e demais profissionais da infância torna-se essencial. Muitas vezes, o serviço de saúde é a primeira porta capaz de identificar sinais silenciosos de violência. Alterações comportamentais, regressão do desenvolvimento, medo excessivo, lesões recorrentes, infecções sexualmente transmissíveis, distúrbios do sono, automutilação e mudanças abruptas no rendimento escolar podem representar pedidos silenciosos de socorro.

 

Proteger crianças e adolescentes é uma responsabilidade coletiva e inadiável. O silêncio perpetua a violência. A denúncia salva vidas. Que o 18 de maio não seja apenas uma data simbólica, mas um chamado permanente à conscientização, à vigilância e ao compromisso ético de toda a sociedade brasileira com a defesa da infância e da adolescência.

 

Denunciar é um ato de cuidado, proteção e cidadania.

 

Canais de denúncia:

* Disque 100

* Conselho Tutelar

* Delegacias especializadas

* Ministério Público

 

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